A montanha não te deve nada.
E, mesmo assim, voltas.
Não te promete bom tempo.
Não te garante que tudo corra bem.
Não se adapta aos teus desejos, à tua agenda nem ao teu estado de espírito.
Simplesmente está lá.
Imperturbável.
Exigindo atenção, respeito e presença.
Talvez por isso voltamos.
UM LUGAR ONDE NÃO ÉS TU QUE MANDAS
Em quase tudo o resto mandamos nós.
Escolhemos quando, como e até onde. Ajustamos o ritmo, mudamos as regras, procuramos atalhos.
A montanha não funciona assim.
Não entende de pressas.
Não negocia.
Não responde a expectativas.
Há dias em que te deixa avançar.
Outros em que te trava.
E outros em que te obriga a dar a volta sem explicações.
Não porque tenhas feito algo mal.
Não porque nesse dia, simplesmente, não seja o momento.
E aprender a aceitar isso faz parte do caminho.

QUANDO O VENTO DECIDE POR TI
Há momentos em que tudo parece alinhado.
O céu abre, a neve aguenta, o corpo responde.
E há outros em que o vento manda.
Não aquele vento bonito de postal, mas sim o que te obriga a subir o fecho éclair, a ajustar o passo, a pensar duas vezes em cada decisão.
Aquela que te lembra que lá fora não estás de passagem, estás convidado.
É nesses momentos que a montanha começa a falar a sério.
Não com palavras, mas com sinais.
E ouvi-la é uma habilidade que se aprende com o tempo.
A CULTURA DE DAR A VOLTA
Durante muito tempo contou-se a montanha como uma sucessão de conquistas.
Cumes, linhas, desníveis, recordes.
Mas há outra cultura, mais silenciosa e muito mais honesta:
a de dar a volta a tempo.
Não como fracasso, mas como decisão.
Não como renúncia, mas como critério.
Saber parar quando o corpo não responde.
Saber voltar quando o clima muda.
Saber aceitar que hoje não é o dia.
A montanha respeita quem a respeita.
E castiga, sem avisar, quem a subestima.

DIAS SEM FOTO, DIAS SEM HISTÓRIA
Nem todos os dias há épico.
Nem todos os dias há descidas perfeitas.
Nem todos os dias há algo para contar.
Saí cedo.
Está frio.
Algo não encaixa.
O material pesa mais do que o esperado.
As pernas não acompanham.
A cabeça está noutro sítio.
Não há foto.
Não há história para contar.
Só o caminho de volta e o ruído do vento.
E, ainda assim, esses dias contam.
Porque são eles que te ensinam a estar sem espetáculo.
A continuar sem aplausos.
A perceber por que estás aí.
A MONTANHA COMO CONVERSA
Quem passa tempo suficiente na montanha deixa de a ver como um cenário.
Começa a vê-la como uma conversa.
Uma conversa exigente.
Por vezes incómoda.
Quase sempre honesta.
A montanha pergunta-te coisas sem falar:
se estás preparado,
se leste bem as condições,
se sabes até onde chegar.
E cada saída é uma resposta diferente.
Nem sempre correta.
Nem sempre clara.
Mas sempre real.
APRENDER A LER O INVISÍVEL
Há coisas que não aparecem nos relatórios.
Não estão nos mapas.
Não se ensinam num tutorial.
A sensação de que algo não está bem.
Essa mudança subtil na neve.
Esse silêncio que não é normal.
Aprender a ler o invisível leva anos.
E erros.
E respeito acumulado.
A montanha não premia o mais rápido nem o mais forte.
Premia quem observa.
Para quem entende.
Para quem não se engana.

O VALOR DE VOLTAR INTEIRO
Durante muito tempo glorificou-se o chegar.
Poucas vezes se fala do voltar.
Voltar cansado.
Voltar com frio.
Voltar com a sensação de que fizeste o correcto, mesmo que não tenha sido o espectacular.
Voltar inteiro é uma forma de sucesso.
Uma das mais importantes.
Porque te permite voltar outro dia.
Porque te permite continuar a aprender.
Porque te permite manter uma relação longa com a montanha.
E a montanha não é de relações rápidas.
DESENHAR COM RESPEITO
ULLER nasce dessa forma de entender a montanha.
Não desde o excesso.
Não desde a promessa fácil.
Não desde a épica constante.
Desenhar para a montanha é aceitar que nem sempre vais ter o controlo.
Que o ambiente é que manda.
Que o material não está para se destacar, mas para acompanhar.
Acompanhar quando está frio.
Quando há vento.
Quando as condições mudam.
Desenhar pensando em voltar.
Não só em chegar.
MENOS BARULHO, MAIS CRITÉRIO
A montanha não precisa de barulho.
Não precisa de frases grandiloquentes.
Não precisa de exagero.
Precisa de critério.
Decisões claras.
Respeito pelo que não depende de ti.
Quanto mais tempo passas lá fora, mais simples tudo se torna.
Menos pose.
Menos pressa.
Mais atenção.
E essa simplicidade não é falta de ambição.
É maturidade.
PARA QUEM ENTENDE QUE NÃO SE GANHA SEMPRE
Esta não é uma mensagem para toda a gente.
E não acontece nada.
É para quem entende que a montanha não está para te agradar.
Que há dias que não correm bem.
Que há dias em que o melhor que podes fazer é voltar.
É para quem não procura dominar, mas conviver.
Para quem prefere aprender antes de impor.
Para quem sabe que a montanha não te deve nada.
E que, precisamente por isso, tudo o que te dá tem valor.
CONTINUAR A VOLTAR
Continuamos a voltar porque lá fora não há filtros.
Porque não há desculpas.
Porque não há atalhos.
Continuamos a voltar porque a montanha ordena.
Coloca as coisas no seu lugar.
Lembra-te do que importa e do que sobra.
E cada vez que voltas, mesmo que seja sem foto,
mesmo que seja sem história,
voltas com algo mais claro.
A montanha não te deve nada.
Mas se sabes ouvir, ela ensina-te sempre algo.
— ULLER
